A Pós-Modernidade e os Seus Impactos nos Casamentos Entre Cristãos
Resumo
A pós-modernidade reconfigurou as estruturas familiares e as representações sociais do casamento, instaurando tensões entre os valores tradicionais de permanência conjugal e as demandas contemporâneas de autonomia, fluidez identitária e autorrealização individual. No contexto cristão, essa conjuntura problematiza um vínculo historicamente concebido sob os pilares da indissolubilidade e da sacralidade, uma vez que as pressões individualizantes da cultura contemporânea passaram a tensionar a normatividade eclesial. Diante desse panorama, o objetivo desta revisão integrativa foi sintetizar e analisar criticamente a literatura científica sobre os impactos da pós-modernidade nos casamentos entre cristãos, identificando como as transformações socioculturais contemporâneas, caracterizadas pelo individualismo, pela fluidez das identidades e pela pluralização de valores, reconfiguram as representações sociais, as dinâmicas relacionais e os fatores de proteção e risco para a estabilidade conjugal nessa população específica. Metodologicamente, adotou-se o delineamento de revisão integrativa, operacionalizado em etapas sequenciais que compreenderam a formulação da questão norteadora, a definição de critérios de busca e seleção, a categorização dos estudos e a interpretação dos achados. O levantamento foi realizado em setembro de 2024 nas bases SciELO e PePSIC, com recorte temporal de 2019 a 2024, mediante descritores booleanos que articularam os termos pós-modernidade, casamento e divórcio entre cristãos evangélicos e católicos. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo categorial temática, articulada à Teoria das Representações Sociais. Os resultados evidenciaram amplo consenso quanto à ocorrência de transmutações estruturais na conjugalidade contemporânea, com os modelos relacionais tradicionais coexistindo sob permanente tensão com os imperativos de autorrealização individual. Constatou-se que as representações sociais ancoram os preceitos teológicos de indissolubilidade nas matrizes simbólicas da modernidade, operando como instâncias reguladoras das expectativas, dos papéis de gênero e das práticas afetivo-sexuais nos contextos protestante e católico. Em contrapartida, identificou-se divergência expressiva entre os autores quanto à eficácia moduladora da pertença religiosa: parte da literatura defende que a religiosidade e os valores confessionais atuam como fatores de proteção e coesão, enquanto outra vertente sustenta que a secularização progressiva e a privatização da fé corroeram a capacidade prescritiva das instituições religiosas, tornando os casamentos cristãos suscetíveis às mesmas volatilidades e lógicas de consumo que afetam os arranjos seculares. As considerações finais indicam que os impactos da pós-modernidade sobre os casais cristãos constituem um fenômeno de elevada complexidade, que rejeita leituras reducionistas de determinismo teológico ou de homogeneização cultural. A família cristã contemporânea configura-se como território de negociação ativa, no qual crenças dogmáticas ancestrais são continuamente reinterpretadas diante das demandas de equidade, realização afetiva e bem-estar subjetivo. Delineia-se como imperativo para futuras pesquisas a realização de investigações empíricas com delineamentos mistos e abordagens longitudinais, bem como a incorporação da competência cultural e religiosa à prática clínica e à formação em Psicologia.Downloads
Publicado
21-09-2026
Edição
Seção
Artigos
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